quarta-feira, 23 de julho de 2014

Os Quadrinhos Como Ferramenta Educacional (Parte 2)

Pois bem, já tendo conhecimento sobre como as Histórias em Quadrinhos se estruturam, passemos à parte mais interessante dessa proposta.

Não é nenhuma novidade que a educação no Brasil não anda muito bem das pernas. E também não é nenhuma novidade que uma das razões pra isso acontecer é o pouco ou total desinteresse dos estudantes em se dedicarem à leitura. E também é de conhecimento geral que as Histórias em Quadrinhos chamam muito a atenção dos mais jovens. Acontece que muitas pessoas, de pais a professores, não enxergam o potencial das HQ's de serem usadas como instrumentos pedagógicos.

Na verdade eles acabam achando o contrário. Talvez pelo fato de as Histórias em Quadrinhos estarem vinculadas à imagem de homens com roupas coloridas lutando, essas pessoas associam imediatamente os quadrinhos a coisa de criança. Mesmo que muitas dessas histórias impliquem numa reflexão, ainda que simplista, o ar fantástico que lhes serve de embalagem é o suficiente para que sejam vistos com maus olhos.

(Uma das frases emblemáticas do especial Surfista Prateado - Parábola, por Stan Lee e o ilustrador francês Jean "Moebius" Giraud)

Para quem pensa assim, o fantástico, de maneira geral, só serve de escapismo, de diversão barata e vazia. Quanto a esse tipo de afirmação, eu poderia muito bem falar de como os super-heróis, segundo muitos estudiosos, são a mitologia moderna, refletem muitos anseios e temores da sociedade, por aí vai, mas apenas me digno a dizer que qualquer tipo de pensamento feito com pouquíssima análise, ou com embasamento superficial é tremendamente equivocado.

Mas de qualquer forma, por conta de educadores de visão estreita, o que poderia ser um ótimo recurso de incentivo à leitura é encarado por muitos professores como um empecilho, uma distração. O que ocorre com muitos outros instrumentos em potencial. Isso só exemplifica o despreparo de muitos educadores. Uma vez que determinado aparelho ou atividade chama a atenção da criança, o mais prático seria incluí-lo no processo educacional, não?

Enfim, é interessante analisar o fato de que, para as crianças, o que mais chama atenção nos quadrinhos é o caráter lúdicos. A princípio, representações pictóricas sempre chamam a atenção. Em seguida, existem as cores, e logo depois, a construção dos eventos na cabeça da criança. Ela vai imaginar as vozes dos personagens, os movimentos entre cada quadro, e com isso a leitura passa a ser uma brincadeira.

(Mafalda, criação de Quino)

Vale ressaltar novamente que assim como a literatura dispõe de recursos narrativos que não funcionam em cinema, por exemplo, e o cinema tem seus meios de transmitir uma informação que diferem completamente dos que são empregados em filmes e apresentações teatrais, no storytelling das Histórias em Quadrinhos também há peculiaridades que não existem em outras mídias. Acredito ter deixado isso bem claro no post anterior. Logo, o quadrinho, enquanto resultado da mescla da linguagem visual com a verbal se torna uma coisa análoga, à mesma medida que conversa com as duas.

Nesse sentido, há muitas similaridades entre o quadrinho e o cinema. Não só pela união do visual e do verbal, mas na construção das cenas, em recursos como closes, transiçõe, e tantos outros. Não à toa, uma das coisas mais importantes na produção de um filme são os storyboards, que nada mais são do que quadrinhos sem falas. Desse modo, o quadrinho pode não se encerrar em si, mas ser usado como porta de entrada para muitas outras mídias, uma vez que muitos quadrinistas também escrevem para séries de TV, livros e filmes, bem como muios quadrinhos abordam temas comuns a muitas outras produções artísticas.

(storyboard e versão final de cenas do filme Paranoid)

Há outro fator interessante, mas que diz respeito à produção de histórias em quadrinhos. São uma mídia barata. Ao mesmo tempo em que o quadrinho se apropria de características de outras mídias, ele se destaca por não depender de muitos recursos para a sua execução. Um desenho não precisa ser bonito ou verossímil para que conte uma história, o que já acaba com o contentamento de muitas crianças e adolescentes com sua "incapacidade" de desenharem bem. Com uma ideia em mente e papel e lápis em mãos, a criança já pode dar conta de produzir seu próprio quadrinho.

Acredito ter deixando claro o quando os quadrinhos são um recurso rico de várias maneiras para se usar na educação. Não apenas para crianças, tendo em mente a infinidade de títulos disponíveis. Há quadrinhos para todos os gostos e não abrir os olhos para esse potencial é um um desperdício. Vale a pena salientar que existem infinitos recursos marginalizados, e que saber utilizá-los depende da criatividade de quem se propõe a educar.

Peço desculpas por não ter aprofundado uma coisa ou outra, é um tema muito vasto e nem sempre é possível falar de tudo. Novamente, muito obrigado pela sua atenção, compreensão e paciência, volte sempre que desejar e quando o fizer, sinta-se em casa XD

Tchau!



Links Relacionados

Texto do site Revista Escola sobre o uso de quadrinhos em sala de aula.
Releitura do Mito da Caverna em história da Turma da Mônica;
Review de HQ Iraniana sobre o mandato maligno de Darth Ahmadinejad 



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